18 de set. de 2007

Adeus Estrada de Tijolos Amarelos

Tudo parecia possível enquanto eu estava no lugar certo.
Rumávamos na direção da felicidade a passos largos.
Seu sorriso verdadeiro, sua jaqueta de malha preta, sua calça jeans descolada, seu cabelo penteado.
Não precisou esticar a mão para que eu saísse do abismo, apenas parou do meu lado e disse:
- Oi.
Pronto. Era melhor que um grito, era melhor que um empurrãozinho, era melhor que uma mão esticada.Só isso, e caminhamos.
A cada passo nosso, compassado e atencioso, deixávamos para trás o cheiro ácido de enxofre e a malevolência de dias frios, preguiçosos e depressivos.
A cada passo nosso era uma pedra a menos na minha parede feita de más influências, maus pensamentos e maus sentimentos. As pedras de frustrações, decepções, alarmes falsos e falsas promessas.
As pedras iam caindo uma a uma a medida que deixávamos para trás e rumávamos lado a lado e a cada pedra que caía, um tijolo era colocado magicamente à nossa frente.
As pedras de tristezas se transformavam em tijolos de alegrias, as pedras de lágrimas se transformavam em tijolos de sorrisos, e assim cada sentimento ruim que sumia um tijolo amarelo aparecia, deixando com que nós continuássemos a trilhar aquela estrada mágica.
Não ousava olhar para trás. Olhar para trás seria como aproximar a quimera de que muito temia. Era afrouxar o cinto diante do acidente certo. Era ignorar a máscara de oxigênio em um avião em queda livre. Olhar para trás seria dizer adeus a tudo de bom que estava acontecendo naquele dia em que transformava pesadelos em sonhos, utopia em verdade.
Então não olhei para trás, nem olhei para os lados. Via apenas você, e via minha estrada sendo feita passo a passo.
Não havia sol, mas quem precisa de sol quando tem alguém para aquecer? E quem precisa de sol exposto quando sabemos que ele está ali, apenas encoberto, mas está aquecendo e clareando como sempre.
Tudo estava bem, até que houve uma efusão, até que deixei escapar a grandiosidade dos meus pensamentos reprimidos, onde expus o por que da magnificência dos meus atos.
Então percebi que não foi apenas o meu verdadeiro pensamento que eclodiu. Minha verdade expôs sua verdade. Nossas máscaras caíram, nossos demônios voltaram a sorrir.
Nossos sentimentos não eram contrários, mas distintos de importância e elevação. Por conta disso, sua supremacia ficou evidente, sua voz desdenhosa exprimia seus valores e sua paciência exauriu. Seu jeito sagaz e desembaraçado deu lugar a saliência, arrogância, desprezo, proveniente da desafetação gradual e completa.
Isso não me faz falta mais.
Pela primeira vez olhei para os lados.
Notei outras pessoas que aos trancos e barrancos, tropeços e deslizes davam pequenos passos nas suas respectivas estradas.
Haviam várias estradas ao meu lado, cada uma com uma cor diferente.
Eu fiquei parado muito tempo no mesmo lugar com a estrada de tijolos amarelos. Não era mais o amarelo vivo de quando estava acompanhado. Era opaco, sujo, velho, embolorado. E por mais uma vez eu gritei, e te chamei, você havia partido.
Joguei um pouco de luz na sua estrada e ela fez uma curva sinuosa do local em que estávamos e por mais que eu me esforçava para ficar paralelo eu não conseguia. Até porque você estava muito distante de mim. Meus tijolos eram fracos, muitas vezes vinham quebrados e minhas pedras que ficavam atrás quebravam em pedaços cada vez menores.
Parei.
Havia sol, mas nem ele me animava ou me aquecia, pelo contrário, eu sonhava mesmo com aquele dia sem sol.
As pessoas que passavam perto da minha estrada jogavam pedras e recebia uma saraivada de impropérios.
O júbilo sumira.
A ceifa farta, o mau tempo fez questão de estragar.
A estrada de tijolos amarelos enegreceu como uma mão de betume pesado.
Queria me levantar, mas meu peso duplicara. Haviam lastros em minhas pernas e grilhões em meus pulsos. Estava cansado, faminto, era um maltrapilho, um morto com vontades mundanas, apenas isso.
Estava em um mundo além dos meus piores pesadelos. Um mundo dominado por parvos estranhos, cujas excentricidades eram demasiadamente abusivas.
Você se foi, me deixou aqui, sozinho. Roubou meu relicário, roubou minha alma, roubou minha vida. Antes tirava as pedras, hoje elas estão me soterrando.
Algumas pessoas me convidavam a andar lado a lado com elas. Mas não eram elas quem eu queria, nenhuma delas aliás. Eu fechava os olhos para elas.
Ninguém é insubstituível, eu sei, mas naquele momento parecia ser.
Fiquei parado.
Algumas plantas começaram a crescer de tanto tempo que eu perdi. Algumas pessoas passavam e não me atacavam mais, eram até gentis. Parecia que as coisas começavam a melhorar com a luz do sol, mas a noite era árdua, e a escuridão não poupava esforços para lembrar que estava fadado. Então percebi, na penumbra da minha desgraça, juntando os pequenos esboços de felicidade com as freqüentes escapadas, a minha prospecção de alegria foi cancelada. Havia lacunas, e não era preciso ser Édipo para decifrar o que era óbvio.
Eu estava na estrada de tijolos amarelos e minha estrada foi uma pequena ponte para você. Voltei um pouco em meu caminho, e com a luz do sol vi sua estrada ao lado da minha. Mas sempre há um outro lado. E havia uma terceira estrada que segue a sua até onde minha visão alcança.
Parei de fazer a curva. Parei de virar, queria seguir reto, não haviam mais tijolos amarelos, pois a mágica tinha terminado. Percebi que seu coração aventureiro não gostara de andar em linha reta. Haviam subidas e descidas, haviam muitas estradas cruzadas. Então percebi que houvera isso na minha também. Eu também era um aventureiro, também cruzava algumas estradas e o pior, transformei muitas estradas amarelas em caminhos escuros. Todas as estradas eram assim, multicoloridas. Não haviam estradas monocromáticas.
Resolvi aceitar os fatos. Resolvi andar. Minha estrada não era mais de tijolos amarelos. Era fria, áspera, não exalava cheiro nenhum. Ao invés de deixar as pedras caírem, peguei uma a uma, transformei-as em piso, em chão, não haviam ladrilhos de brilhante, não havia vegetação agradável em volta, não havia luz. Era um caminho frívolo, sim, mas eficaz.
Certa vez te vi, ao longe, é verdade, parecia feliz, talvez um diferente corte de cabelo, mas aquele sorriso era o mesmo, peralta e inocente, parei por alguns instantes, mas foram apenas alguns instantes. A estrada me transformara. Era inóspito, sim, talvez até inexpressivo. Mas era eficaz. Me tornei eficaz. Sem grandes expectativas, sem grandes exageros, sem grandes conquistas, sem grandes acontecimentos. A cor da minha estrada oscilava, mas dentro de uma margem de segurança. Eu a controlava como quem controla um carro, sempre me mantendo ao centro, dando total sentido a razão. Meu coração não me trairia mais. Assim está decidido, assim está feito.
Adeus estrada de tijolos amarelos. Por muitas vezes os tijolos amarelos se confundiram com a cor do céu ensolarado no nascer do dia, e cegava até o entardecer. E assim sucessivamente. Eu não reparava na verdade das outras horas, das outras posições solares no decorrer do dia, nem com a escuridão que expandiria a percepção do mais disperso. Eu via apenas o nascer e o pôr-do-sol, que não deixava a estrada demarcar o horizonte, fazendo tudo parecer eterno. Eu via apenas o que queria ver.
Mas ao menos vi a estrada de tijolos amarelos. Há pessoas que passam a vida sem nunca ter visto, há pessoas que sonham em vê-la e há pessoas como eu, que a viram, mas certamente não mais a verá novamente. E mesmo que a veja, hesitará em entrar.
Adeus estrada de tijolos amarelos.

11 de set. de 2007

Portas Abertas

Fecharam a porta da minha sacristia.
Estou na penumbra da minha mente onde as paredes possuem lodo que resultou de cada mentira contada e de cada situação desprovida de minhas idéias.
Minhas entranhas parecem querer sair do meu corpo, eu quero vomitá-las para quem sabe melhorar, quem sabe não enjoar. Mas penso nas substâncias necessárias ao meu corpo, que certamente virão com outra refeição, mas não serão as mesmas substâncias. Vomitarei tudo sim, inclusive o que não quero vomitar.
Fecharam as portas do meu calabouço.
E há uma fresta por onde entra um feixe de luz que teima em cair bem na minha retina, eu não quero enxergar, eu não quero saber que há algo melhor lá fora. Me acostumei com o mau cheiro, com as paredes pegajosas, com meu corpo sujo e fétido, com minha alma entregue aos lobos famintos que me esperam no outro canto da porta.
Estou me escondendo.
Não sei por que estou me escondendo, não sei por que estão me procurando, mas sinto a respiração insaciável do meu caçador enfurecido, com seu olhar penetrante e bestificado querendo me provar por A + B que serei sua vítima.
Oh! Caçador insaciável, paciente e pontual. Estou na mira do seu rifle há tempos e ele espera o momento certo, ele quer mirar nos meus olhos, olhando para ele, buscando a face terna e confortável da morte, sua paciência aumenta sua facilidade. Ele espera o meu pedido e pouco a pouco vou me rendendo. Ele espera que eu acene e pouco a pouco eu ergo os braços.
De tempos em tempos abrem as portas, mas a minha inóspita acolhida é sempre mal vista e acabo sempre no meu fastio deserto de areia, boca molestada pela estiagem, olhos cansados e castigados pelo sol a pino impiedoso e sádico que queima a pele branca, e ludibria a mente sensata.
Quem disse que eu queria vencer? Quem disse? Quem falou que queria ser o primeiro esperma? Para que vencemos no início? Para sofrermos depois?
Os zombeteiros ensurdecem meus ouvidos com risadas espessas e zunidos imperceptíveis que vão irritando meus nervos e aflorando minha ira.
A felicidade é invejada. Invejo-lhe no mais profundo âmago, no cerne, na essência. A inveja corrobora minha vontade de sair.
Então abro as portas, olho em seus olhos, pisco com um misto de lascívia e chacota, seus dedos trêmulos hesita perplexo com minha capacidade de ressurreição e quando tu titubeastes pensando onde errou, eu fugi.
E corri, corri até minhas pernas queimarem de cansaço e falta de costume. E chorei, chorei até secarem a fonte de tristeza e infelicidade que reinava em mim, que pairava sobre minha cabeça. E meus pulmões não agüentavam mais receber tanto oxigênio, e meu coração não agüentava mais bombear tão rápido. E com medo de que a epopéia vira um capítulo sem estilo, eu paro. Me viro, afônico pelo medo, atônito pela coragem.
Seus olhos pareciam me consumir. Eu fugi exatamente para onde eu não deveria. Cai na toca do lobo, na lareira pré-aquecida. Sinto-me anestesiado. Sai do medo da incerteza para encarar o medo da certeza. Meu inimigo ilusório agora é real. Meu sofrimento duplica e minhas dúvidas são quadruplicadas. Penso ser um erro ter tentado. Meio ao lodo, à sujeira, ao inferno, me senti aquecido. Agora estou no meu primeiro dia de aula com crianças me olhando, professores me fitando fingindo ser meus melhores amigos, meus maiores aliados, tornando-se meus piores inimigos. Corri em círculos retornando ao ponto de partida, como um circuito, um labirinto. Ele também se surpreendeu com a facilidade, como o verme que cai na boca no passarinho.
Não havia escapatória a não ser que houvesse chuva. E não choveu.
Estava eu preso as pestes e bestas da minha fecunda tragédia. Eu germinei meu fim. Estava certo de que havia errado.
Então eu aceitei o final da história como mero observador. E pela pequena fresta entre as grades e entre as insaciáveis picadas com espinhos venenosos, eu observei e me acostumei novamente com minha realidade imbecil e insuscetível.
Então açoitei com os mesmo espinhos o invólucro que cobria meu corpo e corri novamente, sem perseguidores.
Arrefeceu a febre. Tranqüilizou a lamúria. Inquietou a tristeza. Escarneceu os problemas. Estava incólume, pela primeira vez.
Corri minha estrada. Perdi meu medo. Abri minha porta, novamente.
Abri um sorriso, respirei oxigênio, cai no mar, comi frutas frescas.
A cada porta que eu via fechada, escancarava.
Mas o mais importante. Eu tenho as minhas portas abertas. O lodo se transformou em uma pintura bonita e acolhedora. O aroma era agradável. O abafado se tornou fresco.
O maior problema agora era o tempero, pois às vezes de tão insosso, acabamos exagerando no sal.
Questão de gosto, tempo de costume e auto-controle.

21 de ago. de 2007

Ostracismo Sentimental



Não, eu não quero ser freelance.
Não quero ser descartável.
Não quero ser necessário.
Quero ser indispensável.

Não, chega de ser freelance.
Chega de ser pontual e sem responsabilidade.
Chega de poder aceitar ou rejeitar quando se quer.
Quero ser fixo.
Quero criar intimidade.
Quero criar expectativas.
Quero fazer parte da sua vida.
Chega de ser diversão de final de semana.
Chega de ser solução para carência casual.
Chega de ser moda ou temporada.
Quero mais.

Não, não vou mais ser freelance.
Quero alguém que goste dos meus serviços.
Que queira sempre meus serviços.
Que sorria com meu sucesso no trabalho.
Que puxe a orelha nos meus fracassos.
Freelance não tem Feedback.
Ele simplesmente não é chamado novamente.
Freelance é taxista.
Fixo é aquisição de bem.
Não precisamos assinar a CLT de pronto.
Podemos ter um tempo de experiência.
Sei que faço bem feito.
Sei que não deixo a desejar.
Às vezes posso até pecar no excesso, mas nunca na omissão.

Não, nunca mais freelance.
Hoje quero ser fixo ou nada mais.
Podemos fazer um estágio, mas muito bem remunerado.
E se não der certo, rompemos o contrato.
Mas, por favor, não me pague no final da noite.
Não esqueça meu aniversário.
Não me fale "até a próxima".
Quero mais que isso.
Quero raízes.
E hoje minhas raízes são as solas do sapato.
Quero somatória.
E hoje sou um conjunto vazio.
Minha independência é a dependência do mundo todo.

Não quero ser freelance.
Quero décimo terceiro.
Quero participação nos lucros.
Não quero ser irrelevante.
Quero ser elevado.
Quero todo ano meu abono sentimental.

Não quero mais ser freelance.
Quero ser promovido.
Disse isso ao contratante.
Disse à consultora Afrodite.
Nunca cheguei a ser fixo.
Hoje não sou mais freelance.
Acabei desempregado.
Alguém pegou minha vaga.
Melhor sorte na próxima.

17 de ago. de 2007

10 Dias de Espera

Acordo cansado. Fico em prantos. Caio no sono. Acordo cansado. Fico em prantos. Caio no sono. Acordo cansado. Trabalhei forçado. Estudei desgostoso. Fico em prantos. Caio no sono. Acordei cansado. Esqueci de escovar os dentes. Esqueci de lavar o cabelo. Acordei cansado. Esqueci de tomar o café. Esqueci o ferro ligado. Esqueci de lavar a roupa. Esqueci de entregar o relatório. Acordei cansado. Acordei com sono. Esqueci de colocar a gravata. Estou nu dentro de casa. Estou cansado. O cansaço me cansa. Estou pensando. Estou lembrando. Acho incentivo. Acho insensato. Acho necessário. Ato falho. Não telefono. Fico em prantos. Caio no sono. Acordei cansado. Estou esquisito. Estou sem fome. Estou vendo que nada acontece aqui. Estou com calor. Estou com frio. Estou com a pressão baixa. Estou com a pressão alta. Estou com enjôos. Estou com ranço de melancolia. Estou olhando você me picando. Estou voltando ao normal. Estou torcendo que você erre a dose. Estou sonolento. Estou com as mãos sujas do dinheiro sujo. Aceno e te quero. Explico o caminho. Enxergo turvado. Acordo forçado. Durmo fácil. Acordo cedo. Perco o sono. Perco a vontade. Perco o equilíbrio. Acho incentivo. Acho insensato. Acho necessário. Ato falho. Não telefono. Choro em pranto. Caio no sono. Perco a hora. Vejo o atestado. Almoço fora. Engulo o choro. Entorpeço pensamentos. Entorpeço pensamentos. Mudo o foco. Saio da rotina. Encontro alguém. Faço o normal. Pago. Perco a vontade. Não acabo. Fico enojado. Perco o rumo. Peço desculpas. Vejo ao longe. Estou santificado. Estou mentindo. Estou pecando. Estou desistindo. Estou desacreditando. Estou indo embora. Sento acuado. Peço a primeira. Não surtiu efeito. Olho o relógio. Peço a segunda. Visão enturva. Chamo meu súdito. Vira meu guru. Ouço palavras. Desacredito. Perco a memória. Peço a terceira. Peço a quarta. Falo alto. Peço a quinta. Fico em prantos. Peço a sexta. Olho o teto. Desconheço. Lembro que esqueci de limpar. Estou fedendo. Não chegou mensagem. Sem ligação perdida. Jogo no chão. Vista girando. Não tenho foco. Não tenho estima. Não tenho ego. Hidrato. Desidrato. Hidrato. Estou nu em casa. Acho incentivo. Acho insensato. Acho necessário. Ato falho. Não telefono. Estou sem vontade. Fico em prantos. Caio no sono. Acordo cansado. Durmo de novo. Acordo cansado. Não levanto. Fiquo lembrando. Sorrio. Fico em prantos. Caio no sono. Acordo. Acho incentivo. Acho insensato. Acho necessário. Ato falho. Telefono. Não me atende. Lembro. Fico em prantos. Caio no sono. Acordo cansado. Trabalhei forçado. Estudei desgostoso. Fico em prantos. Caio no sono.

Recomendação: Esperança é a penúltima que morre. Depois vem você. Ótima semana para vocês também.

13 de ago. de 2007

Destino?

Não, eu não acredito em destino. Não acredito em deixar as coisas rolarem. Eu escrevo minha história e faço meus planos. Se eles dão certo ou não... outra conversa. Acho que quando você deixa as coisas acontecerem, fica parecendo aquelas pessoas à beira da morte, esperando o inevitável, prolongando o resultado certo. Não, não acredito que este seja meu destino. Meu destino é desacreditar no destino. É fazer com que o que eu fui destinado a fazer dê errado. Sim, eu faço o que eu quiser, eu sou meu dono, meu senhor. Destino é desculpa de fracassados. Eu procuro evitar o acaso e tratá-lo como uma variável. Poderia estar lá, mas estou aqui. Você poderia estar lá, mas está aqui. Já imaginaram quantas e quantas vezes você já trombou durante toda a sua vida com aquela pessoa que você julga especial? Talvez tenha cedido o lugar para que ela se sentasse, talvez tenham brigado por furar uma fila ou dar um "encontrão" no meio da rua. Variáveis. São tantas, até que um dia dá certo. E foram tantas tentativas erradas que um dia dá certo. Vocês se encontram e se curtem e depois... depois acaba. Até que você nota o número de vezes deu errado, será que era para realmente dar certo? Será que não demos murro em ponta de faca?
Aprendi algo muito importante nos últimos dias. Viver bem é ter a capacidade de ignorar o que não vale a pena e não vale a pena pensar em como deu errado, vale a pena lembrar de quando deu certo.

30 de jul. de 2007

Conseqüências

Por que não comparar a vida com uma colcha de retalhos?
Você dorme 8 horas por dias, trabalha mais 8h (em média, é claro), estuda mais 4h. Fica preso mais 2h no trânsito, resultado: sobram-lhe duas, apenas duas horas do seu dia em que você é apenas você, de você e para você.
Ah sim, sobram-lhe os finais de semana que você tem que dividir entre amigos, família e vertentes. Sim, temos que dividir, afinal, no final de semana você não trabalha 8h, mas prolonga sua soneca em 9h ou 10h, almoça calmamente, conversa, assiste um programa de televisão, vê um bom filme, vai a um bom cinema.
Uma vez me disseram: “Você fez parte da minha folga.” No momento pôde parecer frio, mas depois percebi qual o grau de importância que isso representa.
Vivemos de momentos, pequenos momentos na vida. Às vezes, uma tarde se torna eterna, de um surrealismo sublime, intenso, verdadeiro, não se sabe se aquela tarde acabará naquela tarde, não se sabe se aquela tarde trará noites, dias, viagens, férias, mas não reclame se não se tornar. Lembre-se daquela tarde. Em que tudo parecia possível, em que todas as questões eram decifradas, todos os erros eram concertados, em que tudo pelo que você brigava parecia valer a pena. Em que ninguém lhe incriminava, ninguém lhe prendia. Em que as possibilidades se abriam como flor na primavera, e você escolhia qual a melhor.
Aquela tarde acaba. Como a noite que vem em seguida. Como o dia que vem em seguida. E surge uma nova tarde. Talvez mais quente, talvez mais fria. Quem sabe?
E então você dorme mais 8 horas, e dirige por mais duas horas, e trabalha por mais oito horas e estuda por mais quatro horas, até que chega enfim às suas tão sagradas duas horas, onde você escolhe sua companhia, mas nem sempre a companhia te escolhe.
Pois é. Vivemos a conseqüência do ontem. A conseqüência do anteontem. Não temos algo imediato, não quando envolvemos outras pessoas de livre e espontânea vontade. Vomita porque escolheu beber. Sofre porque escolheu amar. Ama porque escolheu conhecer. Conheceu porque escolheu não ficar só. Ficou só porque escolheu amar demais.
Neste jogo que aquela tarde entramos, estamos jogando sem árbitro, jogando com regras distintas. Efêmero ou eterno? Não sei. Apenas sinto. Sinto que seria bom continuar. Mas se não continuar, pelo menos acabou no bom momento. Às vezes, momentos são como belas fotografias, você as olha, e se lembra, mesmo amareladas, de como foi bom este momento, de como foi intenso e eterno. Fotografias são eternas. Às vezes, o momento se prolonga, e se torna uma historia. E a historia às vezes não é tão boa, se prolonga demais e, aquele momento perfeito se torna pequeno, perto do imperceptível. E esse é o grande barato da tragicomédia das relações interpessoais. Não é quem, é quando. Eis a grande problemática.
E nós esperamos algo divino, o segundo sol, o alinhamento planetário, a vida após a morte, uma viagem extra-corpórea, o Armageddon. E não percebemos que a grande atração da vida está nas pequenas coisas. Nos nossos pequenos e eternos momentos. Naquela colcha de retalhos, retalhes de momentos, retalhos de sorrisos, retalhos de alegria, que teimamos em deixar no armário e só tirarmos em dias de frio, dias cinzentos e tristes, mas que deveríamos deixar na cama sempre, mesmo no calor, mesmo dobrados, mas sempre a vista, nos lembrando das coisas boas, pois assim esquecemos as más, nos lembrando da música, das frases ditas, dos sonhos combinados, das loucuras que nunca foram feitas, das promessas, muitas descabidas, poucas exercidas, mas por que não sonhar na vida? Ela é curta, talvez não de imediato para o jovem, mas curta para o velho. E jovens ficam velhos. Pelo menos deveriam ficar.
Mas nunca se esqueça de estender a colcha de retalhos. No final do dia, na hora de reflexão. Certamente um sorriso amarelo de saudade brotará em seu rosto, uma lágrima caíra e sempre ficaremos com a amarga sensação de que poderíamos ter feito diferente se algo tivesse sido feito, ou não feito. Mas o “se” não existe. Aliás, ele existe apenas para amenizar o resultado, para nos lembrar de como somos tolos, e são mais tolos aqueles que tentam mudar o inevitável, mesmo no imaginário. E viva o amor platônico, mesmo que por alguns segundos de um viés criativo.
As coisas que você vive agora, você escolheu ontem, mesmo sem saber, mesmo no imbróglio desapercebido de alguns segundos, ou na sabedoria chegada por horas incessantes de reflexão.
Conseqüências meu caro amigo. Conseqüências.

23 de jul. de 2007

Inveja Não Mata

Já notaram como o ser humano é demasiadamente controverso? Como prezamos a política da boa vizinhança e não economizamos palavras para descrever os defeitos das pessoas? Como nos esquecemos com facilidade das vitórias e recordamos apenas das derrotas? Como elegemos nossos líderes e apenas reclamamos deles? Como invejamos.
Sim, todo o ser humano é invejoso. Do mais alto ao mais baixo, do mais rico ao mais pobre. Há uma máxima que diz: “Há sempre um peixe maior”. É essa máxima que nos traz a inveja. E a inveja é benéfica, dependendo do ponto de vista, claro. Há pessoas que invejam um estilo simples de vida, outras que invejam uma vida luxuosa. Há pessoas que invejam algo pequeno, ou grande. Não importa. O que importa é que a inveja motiva. Na verdade todos os sentimentos nos geram motivação, amor, ódio, raiva, mágoa, mas a inveja, Ah!!! A inveja é o plus da motivação, é o barril de pólvora. É bem verdade que Platão assinalou com seu Mito da Caverna que a ignorância é uma bênção. E muitos são abençoados. Sem enxergar, não há cobiça. Se bem que até o cego cobiça a visão. Mas a inveja faz com que não cometamos um pecado essencial na nossa vida: Acomodação. No caso do ser humano, a falta de acomodação pode ser confundida com a não-satisfação. Com isso, casamentos são desfeitos, sociedades rompidas, acordos cancelados. O mundo inveja. O terceiro mundo inveja o primeiro. Você inveja o carro do seu vizinho. Inveja a mulher do amigo. A inveja gera a falta de valor de todo o resto.
Em um relacionamento há sempre dois integrantes (salvas exceções). Um que gosta menos e o outro que se dá mal. Casamentos duradouros dão certo porque fazem a combinação desses elementos e não questionam mais nada. A fórmula é mais ou menos esta:
Adaptação + Tempo + Boa Cia. - Inveja = Acomodação + Filhos (Bônus de preocupação e preenchimento de lacunas) = Casamento Perfeito.
O problema maior é a inveja. E ela se estende do primeiro dia ao último. Como não invejar o sexo casual e optar por apenas uma pessoa? Afinal ele não enjoa. Como não invejar um relacionamento estável ao invés de ter uma pessoa por dia? Afinal é como um livro de poesia, curto, bonito, mas são apenas algumas linhas.
A inveja é inevitável, assim como a satisfação. A acomodação é que faz com que façamos nossa escolha. Às vezes nos julgamos velhos demais para recomeçar, ou jovens demais para estacionar. E sabemos que o meio termo é tão difícil de se chegar. E não ouça quem lhe disser que o melhor é se arriscar, nem ouça quem disser que o melhor é manter. Ouça apenas a pessoa que mais lhe conhece. Você. Tudo parece pequeno quando há algo maior. E o que fazer com o tempo que nos é dado? Apenas aproveite.

10 de jul. de 2007

Somos Quem Você É


Eu tinha uns dois dias quando eles vieram.
Tendo me apunhalado no coração, eles dançaram de forma selvagem em volta do meu berço.

- "Impossível" - eu gritei, e voltei a dormir.

Mais uma vez, eu era Ícaro, olhando diretamente nos olhos do sol. Aproximei-me de uma nuvem recém-nascida e imergi prontamente dentro dela. A nuvem me abraçou enquanto eu confiantemente absorvia seu oxigênio, deixando sua brancura fluir pela minha cabeça e aprender todos os meus pensamentos. Mergulhado no êxtase, eu mal percebi o abraço se apertando a cada respiração minha, passando do suave ao violento. Paralisado, eu engasguei a medida que o ar se tornava um veneno pesado. Eu era uma mosca presa em uma planta carnívora, ouvi as batidas do coração da criatura que me comeu, uma batida onipresente, um hipnotizante super poderoso. Respirando meu último suspiro, reconheci nele o som da dança da morte da qual eu tinha escapado.
Estava de volta no meu berço, cercado por um silêncio absoluto que negava tudo o que tinha acontecido. Desacreditado, olhei para o meu peito e chorei, vendo uma chaga aberta. Como se famintos pelas minhas lágrimas, eles se aproximaram, emergindo das sombras.

- "Você acabou fugindo exatamente para onde nós nos escondemos". Não disse nada.

- "Você espera que nós fiquemos para sempre sem dentes, como nos livros infantis. Mas a infância acaba. E aí crescem nossos dentes".

Eles me colocaram em uma cela, no meio da qual cresceu um cardo. Seus espinhos eram tão leves que a cada respiração eles se soltavam e furavam minha pele. Eu não me atrevia a olhar para ele, com medo de que pudesse machucar meus olhos. Fiquei faminto por dias. Então, um dia, o cardo floresceu e um deles veio colher as sementes. Eu corri na sua direção e agarrei uma para comer.

- "Comida para o pensamento" - ele disse, e saiu.

A semente, ao invés de ir para o estômago, foi direto para meu cérebro. E começou a crescer, germinando não em brotos, mas em pensamentos. Uma rajada de pensamentos selvagens invadiu meu crânio, procriando-se ali loucamente, faminta por meu infante córtex. Logo meu reino estava conquistado e eu deitei derrotado no chão e chorei, vendo os invasores estuprando todas as minhas filhas, que eram então devoradas por seus bastardos recém-nascidos. Quando meu coração inchado estava preste a explodir, um deles entrou na cela, afastando as criaturas.

- "Você despreza os parasitas" - ele disse, segurando uma das sementes. - "Mas você os deixa sem escolha até se tornar um simbionte". Eu não disse nada. - "Você pode ir agora. O lugar não mais importa". Quando fiquei em pé e andei até a porta, uns últimos espinhos do cardo voaram e furaram minha pele.

Eu andei por uma estrada que passava por uma terra devastada. Pela estrada, havia postes de luz, e quando a noite chegou, centenas de mariposas vieram voar nos seus brilhos. Elas se agitavam nervosamente em volta dos postes, como se lutassem umas com as outras pela luz. Mas logo seus movimentos se harmonizaram, e elas giravam com felicidade em volta das lâmpadas, realizando suas danças de alegria. Eram crianças andando em carrosséis brilhantes, cujas músicas enchiam o lugar inteiro. De repente, acabando com a melodia, as luzes se apagaram, e as mariposas desnorteadas se espalharam caoticamente, ficando presas em teias de aranha. Eu, impotente, observava a estrada se tornar seus túmulos comuns e chorava por elas, pois elas nem sabiam por quem tinham sido comidas. O massacre mal tinha terminado e as luzes voltaram, atraindo centenas de outras mariposas. Eu joguei pedras nas lâmpadas para impedir o que estava por vir, mas meu braço estava muito fraco para quebrá-las.

- "Você chora pelas mariposas" - Eu ouvi por trás de mim - "Se elas não tivessem morrido, você choraria pelas aranhas famintas". Eu me virei e vi um deles, com seus olhos pretos refletindo meu ódio.- "Eu choro por ambas" – disse, e sai da estrada, enquanto cada passo meu a frente profanava a dignidade das assassinadas.

De repente, a história acaba.